FEITIÇARIA: UM MERGULHO NAS TRADIÇÕES, NA HISTÓRIA E NO UNIVERSO DO HOODOO

Em seu novo livro, Thiago Galenbeck percorre caminhos que atravessam a diáspora africana, o Hoodoo, o Vodu, o ocultismo europeu e diferentes formas de religiosidade popular
Há histórias que atravessam séculos. Algumas foram registradas em livros; outras sobreviveram na oralidade, nos rituais, nos símbolos e nas tradições transmitidas entre gerações.
É nesse território, entre história, cultura popular, religiosidade e ocultismo, que se insere o novo livro de Thiago Galenbeck, Feitiçaria: As tradicionais religiões da diáspora africana.
A obra propõe uma viagem por antigos conhecimentos e práticas relacionadas ao Hoodoo, Vodu/Voodoo, tradições afro-americanas e diferentes heranças espirituais, estabelecendo também conexões com elementos do ocultismo europeu e com o universo religioso e simbólico que se desenvolveu ao longo da diáspora africana.
Entre as referências abordadas estão personagens históricos, tradições populares e elementos como Loás, Orixás, santos, salmos, óleos, pós, tintas, lavagens, gris-gris, talismãs, mojos, velas e práticas mágicas.
Mais do que apresentar um universo exótico ou distante, o autor procura contextualizar essas manifestações dentro de seus percursos históricos e culturais.
Entre África, América e Europa
Um dos aspectos centrais da obra está justamente no encontro de diferentes tradições.
O livro percorre manifestações como o Hoodoo afro-americano, o Voodoo de Nova Orleans, o Vodou haitiano, a Santería e a Obeah, observando como diferentes práticas e crenças se desenvolveram a partir dos deslocamentos forçados provocados pelo tráfico transatlântico de pessoas escravizadas.
Nesse processo histórico, tradições africanas encontraram novas realidades sociais e religiosas nas Américas, estabelecendo diálogos e sincretismos com o cristianismo e com outras culturas.
O resultado foi uma multiplicidade de práticas, símbolos, narrativas e formas de espiritualidade que permanecem presentes na cultura de diferentes comunidades.
O Hoodoo e a memória de uma tradição
Entre os temas de destaque está o Hoodoo Rootwork e Conjure, tradição de magia popular afro-americana que, segundo a proposta do livro, deve ser compreendida também a partir de sua relação com a terra, a ancestralidade, a cultura negra e a história dos povos que preservaram esses conhecimentos.
A obra procura resgatar justamente essa dimensão histórica e cultural, evitando olhar para essas tradições apenas pelo prisma do mistério.
Há, portanto, uma pergunta que atravessa o trabalho: o que acontece quando conhecimentos considerados marginais ou esquecidos são revisitados a partir de sua própria história?
De Marie Laveau aos antigos registros
O percurso apresentado pelo autor também passa por referências históricas do universo do Voodoo, como Marie Laveau, figura emblemática da cultura religiosa de Nova Orleans no século XIX.
A presença dessas personagens ajuda a construir uma narrativa que percorre documentos antigos, tradições populares e conhecimentos que sobreviveram ao longo do tempo.
O resultado é uma obra que pretende dialogar tanto com quem já conhece o universo do ocultismo quanto com leitores interessados em história, antropologia, cultura popular e religiosidade afro-americana.
“Todos nós temos um potencial incrível”
A proposta do autor também dialoga com o interesse contemporâneo pelo esoterismo, pela espiritualidade e pelo chamado ocultismo.
Para Galenbeck, esses conhecimentos podem ser observados dentro de um movimento maior de busca por antigas tradições, especialmente aquele que ganhou força nas últimas décadas com a Nova Era e o neopaganismo.
O livro, portanto, não se limita a apresentar práticas: ele convida o leitor a conhecer os caminhos históricos que fizeram com que essas tradições chegassem até o presente.
E faz isso com uma provocação bem ao estilo do autor:
“Afinal, a leitura também é um exorcismo.”
QUEM É THIAGO GALENBECK?

Thiago Galenbeck é escritor e jornalista, com atuação especializada em turismo e relações internacionais. Pesquisador da cultura popular e das religiões, também se dedica ao espiritualismo e ao ocultismo.
Sua produção literária transita por diferentes campos. Entre seus trabalhos estão pesquisas relacionadas à história, à cultura brasileira, ao folclore e a personalidades da música e da cultura popular.
É autor de biografias de nomes como Celly Campello, Luz del Fuego e Elvira Pagã, além de trabalhos ligados ao universo espiritualista.
Também possui trajetória relacionada à pesquisa das manifestações culturais brasileiras e ao estudo da presença negra na formação da identidade nacional, aprofundando-se nas religiões afro-ameríndias.
O autor destaca ainda sua ligação familiar com a tradição espírita brasileira: é descendente direto de Guilherme M. Galembeck, fundador, em 1926, da Federação Espírita do Estado de São Paulo e integrante de seu Conselho Deliberativo por diferentes gestões.
UMA LEITURA PARA QUEM NÃO TEM MEDO DO DESCONHECIDO
Feitiçaria: As tradicionais religiões da diáspora africana se apresenta, assim, como uma obra para quem deseja atravessar a fronteira entre aquilo que conhece e aquilo que durante muito tempo permaneceu envolto em mistério.
É uma viagem por memória, ancestralidade, religiosidade, cultura popular e ocultismo, conduzida por um autor que transforma sua pesquisa em convite à descoberta.
Como escreve o próprio Galenbeck, este é um livro para aqueles que estão dispostos a “ir para lá” — justamente onde começam as perguntas sobre aquilo que não conhecemos.
E talvez seja esse o verdadeiro convite da obra: não necessariamente acreditar, mas conhecer.
VEJA A ENTREVISTA:
Instagram: @tmenezes









Comentários