ELEONORA ERTHAL - empresária nos ramos de lingerie noite, cafeicultura, turismo rural e hospedagem.
- Absolute Rio

- há 3 horas
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Como cada um tem sua história, aqui vou eu, relembrando um passado que parece ter sido ontem… É estranho quando você precisa parar e se reconectar com você mesmo. E, no meio da minha agitação, será um desafio interessante!
Nasci no Rio de Janeiro em 1960, sou a segunda filha de uma família de dez. Meus pais tinham uma situação financeira estável, até que os negócios foram ficando difíceis. Foi quando resolveram morar em uma fazenda no interior do Estado, onde tive uma infância alegre e feliz até meus oito anos de idade. (quando nos mudamos para a cidade de Bom Jardim).
Desde pequena, liderava com facilidade um ou outro grupo no qual eu estava inserida. E um sonho que eu sempre tinha era casar, ter uma linda família, viajar e ter meu próprio negócio.
E, assim, aos 19 anos terminei o curso de magistério e fui lecionar em um colégio particular chamado Santo Agostinho, em Bom Jardim, por dois anos.
Em 1982, casei e fui morar em uma fazenda. No primeiro ano foi interessante, pois fiquei 6 meses amando e curtindo aquele ambiente de paz, a casa e toda aquela explosão de novidades de início de vida. Mas, com o passar do tempo, veio a rotina e isso me incomodava profundamente, porque não me sentia produtiva como poderia ser. Fazia muitos trabalhos manuais, cuidava da casa, mas isto não era o suficiente.

Assim, na minha inquietude, percebendo que tinha uma escola rural fechada na minha região, vi a oportunidade!
Escrevi ao Governador, oferecendo-me a lecionar gratuitamente, mas não obtive resposta. E, no ano seguinte, passei num concurso e escolhi essa escola para trabalhar. Imagine uma professora e três merendeiras com cinquenta alunos! Eu me dividia entre uma sala e outra para que o aprendizado fosse o mais didático possível. Fiz movimentos para reformar a escola, festas para angariar fundos para levar as crianças e seus pais a conhecerem o Rio de Janeiro, entre outras ações.
Paralelo a isso, fizemos um mercadinho local, pois percebemos a dificuldade das famílias na locomoção para os mantimentos básicos e, com o tempo, acabamos passando o ponto para um senhor da região.
Passou um tempo e meu pai resolveu comprar outra fazenda de café. Pediu que meu marido administrasse e, assim, fomos morar lá. Na época, a casa que eu residia era como uma “casa de boneca” e que foi construída com muito sacrifício. Nossa mudança também contemplava a reforma da fazenda velha do patriarca e, em oito meses, a fazenda ficou linda.
Foram dez anos nessa fazenda, que foi ponto de encontro da família - de muitas festas de aniversário de meus pais e minhas filhas. Quando me dei conta de que estava já com metade dos cômodos da fazenda ocupados com meu negócio resolvi construir um galpão de 150 metros. Aos poucos fui contratando e formando meus funcionários.
Fui convidada a lecionar Educação Artística numa escola da região, devido a uma prévia experiência minha e foi uma experiência inusitada. E, com dias vagos na semana, comecei a ter tempo para empreender. E foi aí que, depois de muitas pesquisas, eu abri uma confecção - isso era início de 1990. Eu não tinha ‘Know-how’ familiar no ramo de moda, mas pensei no que eu sempre gostei: camisolas e pijamas. E, estando em uma zona rural, não precisava acompanhar a moda propriamente. Dessa forma, sem entender muito, mas imbuída da minha força empreendedora, recebi o apoio do meu esposo que me comprou uma overlock, uma colarete e 80 quilos de tecido. E assim surgiu a Monthal.
Eu tinha uma vizinha, Dona Dulce, que residia no Rio de Janeiro e passava os fins de semana comigo, que costurava muito bem - fazia lindos vestidos de noiva e dominava a alta costura. E foi ela que fez os primeiros moldes. Eu, muito atrapalhada de início, me esmerava com aqueles moldes e setas, mas dava certo. Assim, eu fabricava poucos modelos e ela sempre levava para o Rio e vendia minhas peças. Aos poucos, fui indo para Nova Friburgo, deixando minhas peças em consignação em algumas lojas e sempre sendo um sucesso de vendas.
Fui realmente abençoada com a escolha do meu empreendimento, pois eu desconhecia a especialização de Friburgo nesse ramo, mas pude perceber que estava no metiê correto.

Com o rádio do carro ligado, passando pelo Centro de Friburgo, ouvi o anúncio da 1ª FEVEST. E lá estava eu com a Monthal, em uma feira com um formato muito simples, onde os fornecedores de tecido mostravam seus produtos e as confecções ficavam junto com o produto acabado. Vendi tanto que percebi claramente o bom negócio que eu tinha em mãos, mas que dependia de muita dedicação e aprendizado para prosperar.
Logo após a FEVEST, os comerciantes de uma grande loja na Ponte da Saudade me perguntaram se eu poderia deixar meus produtos em consignação, pois perceberam o valor agregado e o giro rápido. Eu prontamente disse que sim. E, toda sexta-feira, eu levava um carro cheio de mercadoria.
Até que fui questionada se eu poderia dividir uma loja na Ponte da Saudade. E foi assim que surgiu a minha primeira, pois dois meses depois ele desistiu. E lá fui eu, sem muito conhecimento em comércio e administração de loja, dividindo-me com dar aulas, cuidar da confecção e da família, empreender firmemente naquele local que se transformaria mais tarde no que é hoje - uma referência.
Como sempre, com o apoio do meu esposo, consegui absorver o ponto. E consegui uma colaboradora que está conosco até hoje e sou muito grata, a Mirses, que assumiu a loja com seu carisma e presteza. A recomendação era “Ouve o cliente! Se não tivermos alguma mercadoria, anota, que na semana seguinte estará aí”. E assim a Monthal foi prosperando.
Depois de 10 anos, tive de escolher no que focar, saindo do magistério e optando pela Monthal.
Paralelo a isso, com as necessidades da minha família, resolvemos sair da fazenda e morar em Bom Jardim. Compramos uma casa, aluguei um galpão e comprei uma Kombi pra trazermos as costureiras do interior. Mas vendo a dificuldade devido ao translado diário, nos desfizemos do veículo, compramos máquinas e as costureiras ficaram trabalhando em casa. Nessa época deixei só o acabamento e o corte na fábrica. Isso durou um ano.
Em seguida, procuramos um bom imóvel para instalar a Monthal. Havia até uma confecção montada à venda, mas optamos por uma velha oficina que ficava na esquina da RJ 116 devido ao ponto. Reformamos a parte de trás, onde ficou funcionando a fábrica da Monthal e na frente fiz a loja. Foi a melhor escolha. Depois de dois anos, consegui construir o prédio e melhorar as instalações.
Eu investia muito em consultoria, uma vez que deveria ir me especializando no negócio, aliando também ao meu aprendizado com meus próprios erros.
Em 2000, obra pronta até o 3º andar, resolvi montar uma loja de departamento toda setorizada. Empório Bom Jardim foi uma loja de referência na cidade durante alguns anos. Mas vendo o pequeno retorno, com investimento elevado e o ponto ineficiente para o negócio em si, fechei o empório depois de quinze anos.
Nisso, minhas filhas já estavam por ingressar no 3º grau. Enquanto Débora optou por estilismo, Dayse fez administração. E ambas as especializações agregaram enormemente na Monthal. E, assim, a empresa foi se tornando familiar. E em seguida vieram os genros, um especializado em produção e outro em finanças.

Nesse mesmo ano, comecei a viajar para o exterior. Juntávamos Monthal, Belles e DeChelles para prospectar moda e visitar o Salon International de La Lingerie em Paris, onde contratávamos uma estilista do Rio para nos acompanhar. Logo depois, minha filha Débora se formou e juntou-se nas viagens para fazermos pesquisas. Assim foi até 2019.
Eu tive, inclusive, a oportunidade de representar Nova Friburgo no Salão de Paris, junto com mais nove confecções que faziam parte de um consórcio naquela época, entre elas a Tardene. Eu e a Rita trabalhamos naquele evento e foi uma experiência única.
Mesmo sendo a maioria das minhas viagens realizadas por trabalho, realizei meu sonho de viajar, conhecendo assim 25 países no decorrer desses anos todos.
Nesse ínterim, íamos a feiras de lingerie pelo país. Em uma feira em Gramado, tivemos uma grata experiência: atraímos clientes e concorrentes com o cheiro do nosso café. Era a primeira vez que levávamos o nosso grão para degustação, presenteávamos os nossos clientes com nosso café embalado em seda e foi ali que surgiu a ideia de criar o Café Monthal.
Concomitantemente, em 2018, o SEBRAE fez uma consultoria na região para a melhoria dos cafés. Foi uma experiência única de muitos aprendizados, onde o professor Boren, mestre do café no Brasil, nos visitou e nos incentivou a fazer os cafés especiais, entre outros.
A fazenda passou por muitas mudanças e muitos treinamentos. E senti a necessidade de investir nas instalações para receber visitantes. Sendo assim, criamos o Espaço Café Gourmet que se tornou local de provas, visitações e toda uma gama de experiência sensorial do processo do café - do grão à xícara, junto a um sommelier que muito nos ajudou na formação dos cafés especiais.

Estava tudo caminhando a todo vapor, quando em março de 2020 fomos surpreendidos pela pandemia.
Fechei a empresa e fui para a fazenda. O que era inicialmente um plano de quinze dias de isolamento transformou-se em uma estadia de um ano e meio e, nesse processo, minhas filhas vieram para a fazenda com suas famílias e vivemos em comunidade, aliando fazenda e fábrica.

A secretária de saúde do município entrou em contato e pediu para fabricarmos jaleco e máscaras, pois haviam ganhado o TNT. Foi aí que chamei cinco costureiras para fazer o trabalho e não paramos mais. Começamos a reverter todo tecido parado na Monthal em máscara - tivemos uma produção de mais de vinte mil peças. Doamos muitas e vendemos outras tantas. Coloquei máquinas nas casas das costureiras e assim seguimos entre tantos desafios: atender a demandas de hospitais e médicos, com materiais de EPI (jalecos, macacões cirúrgicos, etc).
Paralelamente, iniciou-se uma demanda por pedidos de pijamas online. E a Monthal tinha o produto certo para aquele momento. Com o catálogo de inverno pronto antecipadamente, com 60% da produção feita e com matéria-prima na fábrica, conseguimos atender aos nossos clientes. E, numa época pandêmica, em que a regra era minimizar as saídas de casa, trabalhar em sistema de homeoffice e afins, conseguimos difundir cada vez mais o uso de nossa linha homewear.
Nesse período pandêmico, comecei a dar mais atenção à fazenda e a implementar mudanças, junto a meu esposo. E dedicamo-nos a fazer cafés diferenciados, especiais, implantando os conhecimentos adquiridos com o professor Boren e outros estudos. E todo o trabalho e empenho frutificou numa super colheita! Nunca havíamos colhido tanto café! Via meu marido num trabalho exaustivo de supervisão.
Em 28 de agosto, fomos surpreendidos com um incêndio na estrutura de secagem do café, onde estava armazenada toda a nossa colheita. Começou às duas e meia da madrugada e prolongou-se até às 23 horas. Era uma corrida contra o tempo! E a solidariedade de todos os funcionários e vizinhos nos impressionou fortemente. Eram de ações pequeninas a caminhões enviados para retirada dos grãos.
Lá pelas cinco horas da manhã, cansados e chocados, lembro-me de ver o rosto de meu marido banhado em lágrimas. Com o coração apertado, falei “Zé, considerando o ocorrido, mais a nossa idade e o preço do café que não está bom, se quiser, é uma boa hor para desistir. Teremos uma boa desculpa. Mas também podemos retomar de uma forma diferente, com mais tecnologia e inovação. Temos aqui treze famílias que dependem desse trabalho”.
Deus foi nos iluminando. Criamos coragem e, no decorrer da semana, começamos a pensar nas mudanças e a conversar em família.

Meu genro se inscreveu em um concurso da ABDI e foi selecionado. Muitas inovações iriam chegar e, em contrapartida, era preciso desenvolver um robô para revolver o café no terreiro e difundir tecnologia na região - robô esse que atualmente está em um startup no RJ. Essas iniciativas foram nos dando força e coragem para as novas mudanças:
● Reconstruímos o galpão mais moderno;
● Os secadores receberam sensores para controlar a temperatura ideal;
● Aplicamos tecnologia de monitoramento por satélite nas lavouras e monitoramento nas estufas com sensores;
● Criamos uma estação meteorológica para acompanhar as mudanças climáticas;
● Colocamos placas solares;
● Possibilitamos o acompanhamento dos monitoramentos via celular.
Nesse período, recebemos a visita de um engenheiro e depois de conversarmos sobre o plantio do café no sistema agroflorestal, fechamos uma parceria com o projeto de implantação desse sistema na fazenda. Um trabalho belíssimo, feito com o uso de adubação verde, plantando milhares de mudas de café geisha consorciadas a oliveiras, macadâmias e árvores nativas.
Meu sobrinho nos presenteou com umas sementes do mais famoso café do mundo - café geisha, e as mudas já estavam avançadas. Foram cinco mil mudas de café plantadas e consorciadas a 250 oliveiras e árvores nativas. Um trabalho belíssimo, feito com o uso de adubação verde, que pega o nitrogênio do ar e joga para as raízes do café e das árvores - adubo esse que foi feito a partir dos resíduos da fazenda. Tudo caminhando com sucesso, com planejamento de aumento de área, com plantação de mais pés de café, oliveiras, macadâmias, entre outras árvores nativas.
O ano de 2021 foi muito significativo. Depois de longa jornada, participando de vários concursos, ganhamos 1º lugar Qualidade pela ABIC - um concurso nacional que presenteou o RJ pela primeira vez; 2º lugar Prêmio Mulher do Agro de Média Propriedade, realizado pela Bayer e Abag; entre outros. Firmamos também uma parceria público-privada com instituições de ensino para pesquisa e troca de conhecimento. E seguimos nessa caminhada com a fazenda Agro 4.0, buscando diversificar culturas e tendo o café como a nossa estrela, para que a fazenda se torne sustentável econômica e ecologicamente.

Em suma, hoje, eu transito nesse universo da lingerie com o café e agora empreendendo em hospedagem, fomentando o ecoturismo da nossa região - recebendo estrangeiros nas visitações e mesmo participando de programas nacionais, como o É de Casa e Jornal Hoje, e internacionais também. Tudo isso fortalecendo o ecoturismo e dando visibilidade ao Café Monthal com a lingerie
Essa é a minha trajetória - num mundo de pijamas e café. E sempre sendo abençoada com muita força e com pessoas maravilhosas na minha vida - uma família esplêndida e amigos surpreendentes.
Assessoria DG assessoria e comunicação
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Fotos Lucas Souza







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