Homem com H - crítica ao filme sobre Ney Matogrosso
- Absolute Rio

- há 2 dias
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Por Edgard Mandarino
Assisti ontem o tão aclamado Homem com H, cinematografia de Ney Matogrosso. Ao final fiquei com duas sensações opostas: maravilhado pelo trabalho hipnótico de Jesuíta Barbosa e frustrado pela miopia do roteiro.
O filme parece confundir ousadia com repetição – e, nesse processo, transforma a vida vulcânica de Ney Matogrosso num diário demasiadamente íntimo, quase voyeurista, em que a arte fica em segundo plano.
Não me incomoda nem um pouco que a sexualidade de Ney seja mostrada; ela é parte indissociável de sua persona, o problema é a proporção: a cada virada dramática, lá vem outra cena de cama, substituindo espaço que poderia apresentar passagens cruciais da trajetória dele. Fica a impressão de que o filme quer “ousar” sem precisar pensar muito sobre o que realmente fez de Ney um fenômeno cultural.
A fase Secos & Molhados – dois álbuns de estúdio, o 1⁰ com mais de um milhão de cópias vendidas, um álbum ao vivo no Maracanãzinho, desafio frontal à ditadura e às normas de gênero – é comprimida a um disco único e a um fade-out melancólico. Resultado: quem não conhece a banda sai achando que foi um experimento breve, quase acidental quando, na verdade, foi um terremoto que ainda ecoa na MPB.
A mesma tesoura do diretor atingiu o momento em que Ney, de tanga de onça, purpurina e penas, abriu o primeiro Rock in Rio, enfrentando com coragem as vaias e ovos de uma plateia heavy metal, mas inaugurando o maior festival da América Latina com um manifesto de brasilidade glam.
Também faz falta qualquer menção a seu papel de padrinho e diretor cênico do RPM. Sem o faro artístico de Ney, Rádio Pirata ao Vivo não teria virado o show-referência que moldou o rock nacional dos anos 80. Esse capítulo, simplesmente, sequer existe no longa.
Personagens como Rita Lee (resumida a um poster na parede) e Raul Seixas (um "bêbado" barrado no camarim) foram ocultados da história de Ney, assim como o próprio Ney foi ignorado no filme do Cazuza.
A discografia – mais de trinta álbuns que ousam do samba ao eletrônico – é reduzida a uma colagem apressada. Obras inteiras, como "As Aparências Enganam" ou "Bloco na Rua", que mostram sua eterna reinvenção, ganham o mesmo destaque que um figurino piscou-e-perdeu. Faltou respirar a música, ouvir a música, deixar o espectador sentir por que Ney continua lotando teatros aos oitenta e poucos anos.
Ney é performer, ator, diretor, coreógrafo implícito, pioneiro na visibilidade LGBTQIA+ e material de estudo acadêmico mundo afora. O filme poderia equilibrar paixão e legado; preferiu a fórmula “polêmica + sexo”, como se isso bastasse para retratar um cometa. Resultado: uma cinebiografia pequena diante do personagem que pretende celebrar.
Homem com H é um jantar em que servem apenas a entrada. Sacia a curiosidade superficial, mas deixa fome de entender quem foi esse artista capaz de abrir festivais, romper tabus e ainda hoje cantar com fôlego de menino.
Ney Matogrosso merece urgente filme (quiçá um documentário) que enfrente toda a sua amplitude – não um mosaico de lençóis em 4K.
Enquanto esse longa definitivo não chega, restam seus discos, seus shows e a memória de um Brasil que vibrou (e ainda vibra) cada vez que ele pisa no palco. Talvez, por ora, seja melhor continuar ouvindo Ney ao vivo: nenhum diretor conseguiu, até agora, filmar a tempestade que acontece quando ele começa a cantar.
Ney é gigantesco!
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Via Toca do Lobo









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