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COM CURADORIA DE SHANNON BOTELHO, A CASSIA BOMENY GALERIA LANÇOU A EXPOSIÇÃO "O Tamanho Dos Sonhos" EM IPANEMA

18 de ago.
2 min de leitura

“Sonhei que estava sonhando um sonho sonhado”

Martinho da Vila


Podemos imaginar que os sonhos pertençam apenas ao futuro. Talvez, seja justamente o contrário. Imaginemos que sonhar consista numa maneira de constituir o presente. Mais do que antecipar o que virá, o sonho desloca aquilo que já existe, convoca aquilo que habita adormecido no fundo de nossas consciências. amplia os limites do possível e nos convida a experimentar o mundo. Como memorável samba de Martinho da Vila, há sonhos que se desdobram em outros sonhos, numa imaginação que nunca se encerra.


A vida se sustenta no movimento, e todo movimento emerge da força dos sonhos. São eles que impelem os gestos cotidianos, alimentam desejos e tornam possível imaginar aquilo que ainda não existe. O tamanho dos sonhos parte dessa compreensão para reunir artistas cujas obras dão corpo a diferentes formas de imaginar o mundo. Cada trabalho constitui um fragmento dessa matéria sensível: não apenas revela as dimensões que a vida pode assumir no presente, mas projeta horizontes para aquilo que ela ainda pode vir a ser.


Neste tempo marcado por incertezas, esta exposição buca reivindicar a imaginação como um exercício de esperança. Não se trata de esperar por um futuro ideal, mas de reconhecer que toda transformação começa como desejo, intuição ou imagem. Aqui a arte se torna um lugar onde o porvir pode ser ensaiado antes mesmo de ser vivido. As obras reunidas não oferecem respostas nem pretendem estabilizar sentidos. Antes, oferecem questões capazes de ampliar nossa percepção da vida e de suas possibilidades.


Nas obras de Beatriz Lindenberg, o corpo é a medida da imaginação. Suas formas são estruturadas a partir de instruções, repetições e gestos que mobilizam o fazer, tornando-o um campo de experimentação, em que cada ação projeta outra ainda por vir. Se em Beatriz a imaginação encontra no corpo sua primeira escala, em Marinalva Rosa o olhar é deslocado para os processos invisíveis que sustentam a existência. Estruturas biológicas abstraídas do real, organismos quiméricos e cores em constante transformação forjam paisagens internas que revelam a dinâmica silenciosa da vida.


Essa mesma ideia atravessa a produção de Consuelo Veszaro, cujas formas se dobram, expandem e sustentam umas às outras em um delicado jogo entre equilíbrio e instabilidade, sugerindo que toda ordem depende da capacidade de adaptação. Já Ygor Landarim convoca a memória como matéria para imaginar o porvir. Lugar, pertencimento e materialidade articulam trabalhos que compreendem o passado não como abrigo nostálgico, mas como um terreno fértil de elaboração, em que as lembranças projetem novos caminhos.


Talvez o tamanho dos sonhos jamais possa ser medido. Quem sabe ele corresponda exatamente à dimensão daquilo que ainda somos capazes de transformar? É nesse lugar — entre o que somos e aquilo que ainda podemos ser — que a exposição se posiciona. Mais do que celebrar a esperança, ela propõe exercitá-la. Mais do que imaginar o amanhã, ela nos convida a construí-lo.

 

Shannon Botelho

Fotos de Leo Marinho


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